A agressividade implícita em uma ideação ou ato suicida

O psicanalista Donald W. Winnicott formulou a teoria do amadurecimento, dando um outro conceito à psicanalise após Freud. Em sua teoria, o autor é o que mais diverge de outros teóricos psicanalistas sobre a questão da agressividade. Na teoria do psicanalista, a agressividade é inata, mas só se desenvolverá se lhe for dada a oportunidade de a experenciar. Sua principal ideia não é estudar a agressividade em si, mas sim o perigo da repressão da agressividade.

Quando o ambiente prove cuidados apropriados e demonstra aceitar, reconhecer e integrar essa característica do ser humano, a agressividade integra-se a personalidade e será o item primordial na capacidade de se relacionar com o outro, trabalhar, brincar e defender seu território. Porém, quando essa manifestação não for integrada ao sujeito, a agressividade terá de ser escondida na timidez, no autocontrole ou até mesmo em manifestações antissociais, violentas e compulsões destrutivas. O autor postula “Em termos da fenomenologia, é preciso atentar para o fato de que a fraqueza, o retraimento e a omissão são tão agressivos quanto a manifestação aberta de agressividade. Ser roubado é tão agressivo quanto roubar. Suicídio é fundamentalmente igual a assassinato.”

Podemos, assim, refletir um pouco melhor sobre a questão da agressividade implícita em alguém que tenta ou consegue consumar o suicídio. Como psicoterapeuta, tenho observado que a maioria dos pacientes atendidos em casos de ideação ou tentativa de suicídio apresentam uma agressividade que foi canalizada contra eles mesmos: um sentimento que mais tem a ver com as variáveis incontroláveis da vida do que com o próprio sujeito. Uma das explicações possíveis para isso é que as pessoas aprendem que a agressividade é algo ruim, que não faz parte de bons seres humanos e, desta forma, tentam reprimir o sentimento dentro delas. Por ser um sentimento inato, essa repressão faz com que nosso inconsciente tente, de alguma maneira, manifestar a agressividade. Como não foi aprendido a fazer isso de uma forma saudável, a pessoa usa a agressividade contra si mesmo.

É importante que não haja confusão entre agressividade e violência. Agressividade significa “mover-se a diante”, que vem de “ad gradior”. Já a violência é uma agressão destrutiva. Quando não foi aprendido a usar a agressão de forma positiva, ela pode tornar-se violenta consigo mesmo ou com os outros. Alguém que tenta o suicídio pode ter dentro de si uma agressividade que não foi canalizada em outras atividades. O indivíduo, por não saber como lidar com aquele sentimento, agride violentamente a si mesmo. Foi aprendido que sentir aquilo o torna uma pessoa má, aumentando ainda mais a sua angustia.

Conforme escrevi anteriormente, a agressividade quando canalizada positivamente pode aparecer no seu trabalho, nas suas relações, nos seus sonhos, em esportes e em sua própria defesa sem ser violento consigo mesmo ou com o outro. Levanto aqui uma questão: se a canalização da agressividade é aprendida na infância e repetida durante a vida, como adultos podem reaprender a canalizá-la de maneiras positivas? A conscientização de que a agressividade é algo inato é primeiro passo. Ter consciência de que essa sensação é algo normal já traz um grande alivio. Mas, fazendo psicoterapia, você aceita esse sentimento e reaprende a canalizar sua agressividade de uma forma que ela poderá trazer muitos benefícios à sua vida. É um processo longo e trabalhoso, porém, é possível sempre sermos melhores através do autoconhecimento que a terapia nos proporciona.

DIAS, Elsa Oliveira. Winnicott: agressividade e teoria do amadurecimento. [Online]. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302000000100001. Acesso em 19/11/2018.

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