A Alma Livre e as Bolhas do Ser

Quando lidamos com rótulos, estigmas e esteriótipos, vê-se sempre uma meia certeza sobre uma série de generalizações pessoais sobre o outro. Este outro que está aí, mais ou menos aparente e consciente de si-mesmo. Sem dúvida, há um compreender-se mútuo ocorrendo a partir de uma temática impessoal. Assim o fazemos por segurança.

O ser com os outros é parte da estrutura humana, o outro pode carregar a imagem de um porto-seguro ou o inferno personificado, a depender de nossa visão e a forma como lidamos com os problemas. Pretende-se, neste breve ensaio, tratar das relações humanas e nossas expectativas e idealizações: das afetações humanas que acontecem diariamente.

Todo movimento é um compreender-se ou compreender o mundo ao seu redor, ganhar-se ou perder-se na visão dos outros e de si-mesmo. Não somente, a maneira com a qual irei esperar algo de alguém, ou a maneira com a qual alguém se relaciona ou um grupo se relaciona, dirá em parte sobre as pessoas em seu modo de ser cotidiano, de suas personalidades sociais – o que Jung chamou de persona.

Essa personalidade social, Jung entende como uma adaptação necessária ao bom convívio entre ser humanos, uma personalidade mais geral, que se aproxima dos esteriótipos que tratamos no começo do texto. Assim abre-se o mundo compartilhado e, mais especificamente, a vida social, formando uma rede inter-afetiva.

Compreender-se como um ser que se positiva no mundo, que transforma o mundo positivamente, dependeria, portanto, de experiências de chegadas positivas. A primeira chegada neste mundo é saído da estreiteza do útero materno, desde a habitação, cujos sons e os espaços serão marcantes, quanto nos primeiros anos de vida, cuja presença das figuras paterna e materna serão imprescindíveis e formarão uma primeira forma de sentir e lidar com o mundo ao redor. Pelo incessante trabalho, e falibilidade esperada, Winnicott cunha o termo “mãe suficientemente boa”, aquela que amparará e servirá de suporte e holding para atenuar a chegada deste bebê.

Voltando as relações sociais, já na idade avançada, haverá na compreensão de si e do outro as marcas das experiência múltiplas que passamos em nossas vidas. Sendo assim, a maneiro como nos autocompreendemos será determinada na chegada, revivida e até mesmo transformada no decorrer de nossa existência. A primeira impressão da chegada no mundo é um aspecto fundante do mundo compartilhado deste indivíduo e como este o transforma e vice versa.

Uma série de experiências positivos e negativas ao chegar no mundo terão maior potencial de perpetuação na vida adulta. Será este, que em seu projeto de mundo particular, não só verá o mundo positivamente, mas, muito possivelmente, terá o mesmo retorno da circunvisão dos outros, que se encontram aí no mundo e dele também se abrigam. Digo que do mundo nos abrigamos, pois é exatamente da inospitalidade do mundo, dos percalços do dia-a-dia, inseguranças existenciais, inseguranças políticas e incertezas de futuro. A figura do herói é aquele que deterá uma bolha imunológica (uma vacina de bem estar) tentadora e de difícil recusa, um superpoder de acabar com o mal estar social.

Convido a refletir sobre a noção de que, sendo a cada momento, teremos de ter, querendo ou não, um certo grau de protagonismo e realismo, um pouco de superherói e de supervilão. Visto que as afetações positivas e negativas se interrelacionam, não mais podemos pensar só no conceito de projeção da psicanálise, mas sim, pessoas se relacionando e se compreendendo a cada instante, e o caráter magnético e dinâmico dos seres em sua compreensão negativa ou positiva de si-mesmos e do mundo.

Onde podemos chegar se formos mais a frente com este modo de ver os relacionamentos? Aquele que experienciou o mundo negativamente em sua primeira chegada logo ao nascer e reviveu momentos de inospitalidade muitos conturbados ou violentos, uma chegada em uma família desestruturada, por exemplo, fundirá, à compreensão de si na vida adulta as primeiras marcas de um “bebê anti-social”. Como se a música tema de sua vida ressoasse este primeiro (des)encontro. O (des)encontro será, possivelmente, parte da maneira pela qual aquele ser humano concebe a si mesmo e em seu contato com os outros. Desconfiado, desajustado, prefixado nos (des) que revelam a falta a qual foi acometido no começo de sua vida e que aprendeu a repetir, produzindo (des)amparos na falta de outro repertório.

Podemos, através da análise e da terapêutica atuação, criar uma nova imagem, mais harmônica, interferir na música tema e criar uma nova melodia de vida, uma medida mais equilibrada entre o estranhamento negativo e o estado positivo de superidentificação com um esteriótipo.

Como saber o caminho do meio? Como ter certeza se o bem estar é verdadeiro naquele que se acostumou com as sombras e o fechamento? Como afirmar com convicção que ser bem sucedido na vida social desperta o melhor de si? Na clínica, vê-se este tipo de disparidade e incoerências, fazendo da incoerência humana mais a regra do que a excessão – E tudo bem ser incoerente e viver as próprias aflições com respeito .

O discurso fictício de como a vida “deve ser vivida” errou igualmente ao não conseguir zelar pela autonomia individual ao não permitir com que o indivíduo possa se deter e encontrar-se, ao não o permitir criar o próprio enredo de sua vida. Uma boa dose de comédia nos ajuda a enxergar as peripécias cotidianas que fazem-nos crer em meias verdades. Também, a piada nos ajuda a pensar e recriar o nosso mundo.

Apesar de ser bastante difícil a tarefa do psicólogo equilibrista, parece interessante pensar nas diferentes condutas em que cada uma dessas posições, do personagem esteriotipado e do outro lado o estranhamento. O que cada um pode demandar. Como representante da humanidade e da sociedade, o psicólogo poderá convidar àqueles que se estranharam em demasia no (des)encontro com o mundo, a redescobrir um espaço mundano mais ético e menos aversivo. Bem como, o acolhimento de uma séria (des)inquietação do outro, demandaria, muito possivelmente, pequenas crises no status quo, provocando-o a procurar uma perspectiva de si mais original, mais próxima de sua alma livre.

Você precisa estar logado em para postar um comentário.