Antidepressivos, trepadeiras e árvore

“O cogito freudiano é antes de tudo desidero ergo sum” (Jacques Lacan)

Depressão

É semelhante a uma queixa passional. Como uma mulher que há anos vem sofrendo com um companheiro indiferente e pouco colaborativo. Sofrida com uma jornada de trabalho extenuante e infinitas solicitações advindas dos filhos. Exasperada com a sedução crescente das mídias sociais para que atualize suas proezas nos palcos e passarelas da vida urbana. Refém do apelo infindável pela imagem pessoal impecável. Enfim… São tantas demandas alheias que ela não suporta a tensão. Suspira, encharca os olhos de lágrimas e, resignada, nos diz: “Não aguento mais esses remédios, mas preciso deles senão eu piro.”


O que são esses remédios tão necessários e insuportáveis?

Em 2010, O Tempo e o Cão: a atualidade das depressões, Maria Rita Kehl recebeu o Prêmio Jabuti 2010 na categoria livro de não ficção.

Assim, a autora nos diz que muitos depressivos buscam a psicanálise por que se sentem empobrecidos na vida interior pelo uso prolongado dos antidepressivos.

É comum sintomas ansiosos porque os fármacos não fizeram o efeito esperado. Quiçá perderam sua eficácia depois de um período de uso relativamente longo.

Também por sentirem que os efeitos dessas drogas não os tornaram totalmente inapetentes para falar, e por isso a escuta analítica.

Os psicofármacos são úteis e necessários em casos graves de Transtorno Depressivo Maior para controlar sintomas graves no humor, no comportamento, no sono, no corpo, na cognição e, em se tratando de Transtorno Bipolar, proporcionar um certo equilíbrio para as fases maníacas.

O fato de os medicamentos antidepressivos serem úteis e necessários não significa dizer que são de per si suficientes, assim como me referi no primeiro parágrafo, eles são úteis à semelhança de cônjuges indiferentes: até que […]. Ou para ser mais explícito, até que o paciente, enquanto sujeito de desejo, encontre seu lugar ao sol.


O lugar do sujeito ao sol

É uma metáfora com a qual pretendo apontar aquele sentido que o paciente deverá dar ao seu desconhecido desejo. Esse que, por alguma razão, foi relegado a um plano desprezível.

Assemelha-se a sujeira posta debaixo do tapete que de tanto ser acumulada cresceu como uma nojeira e tomou toda a sala.

A depressão é a sujeira em que o desejo renegado se transformou. O desejo grita por ser ouvido, ele quer reaparecer mesmo que seja como um incômodo entulho.

Para dizer nos termos de Jacques Lacan, o desejo reprimido é o Real que retorna em forma de sintomas.

Lugar do desejo

Assim, na análise de sujeitos marcados pela depressão percebemos o quanto o sintoma acaba sendo um lugar de refúgio contra o imperativo de gozo que não comporta e nem aporta qualquer lugar ou reconhecimento ao seu próprio gozar.

É como se o depressivo, por não poder ou não encontrar vias para desejar, deprimisse contra o desejo de gozo do Outro, que é empecilho ao seu próprio desejo.

Em outros termos, ele se refugia na depressão por não encontrar vias de gozo do seu desejo, este que está como que interditado por ter cedido lugar ao gozar de um Outro que por sua vez demanda cada vez mais gozar.

O depressivo é a árvore que se recusou a viver para não ter a sua seiva sugada pelas trepadeiras, ou pelo gozo do Outro.


Hipótese

Então os fármacos, quando administrados enquanto única via terapêutica, estão a servir mais às trepadeiras do que à árvore?

Sim, é o que nos parece na análise de sujeitos depressivos. Visto que a vida para eles perdeu o sentido. A vontade deles se encontra abatida por se recusarem a satisfazer às renúncias pulsionais exigidas pelo voraz gozo do Outro.

Eles perderam o sentido da vida e jazem no nonsense, isto é, no absolutamente sem-sentido. A vida não possui mais brilho, não significa mais nada, é um insuportável vazio.

A terapêutica farmacológica nesses casos, quando bem eficaz, serve para manter seus pacientes vivos tal qual autômatos. Sujeitos assujeitados ao gozar do Outro que o sugará até não haver mais condições de qualquer vitalidade. Esta terapêutica, em última análise, transforma os homens em “almas mortas” como bem nos apontou Nikolai Vasilievich Gogol.

Enfim

Quando ouvimos dizer: “(…) preciso dos remédios senão eu piro” podemos, enquanto psicanalistas, devolver:

Aqui você pode pirar até que não mais precise destas tralhoadas farmacológicas.

Pire, vire-se ao avesso. E quando estiver revirado traga de volta seu sonho, seu desejo, seu anseio. Aquilo que, à semelhança de um ouro encoberto por escória, ficou esquecido e relegado como um lixo em um entulho de outros descartes abaixo do gozo do Outro.

Volte a existir enquanto sujeito de desejo, isto é: “Desidero ergo sum”.

Adalberto Costa Oliveira

Psicólogo / Psicanalista

<oliveiraben19@gmail.com>

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