Da solidão a descoberta de si

Solidão

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las era necessário apontar com o dedo” – Gabriel Garcia Marquez

Em Cem anos de solidão é assim que o autor colombiano começa a descrever uma época habitada pela solidão de toda uma estirpe. Para quem enquanto profissional ocupa, entre outros, o lugar de escuta do sofrimento alheio, a solidão é apresentada o tempo todo. Isso porque, a solidão em si é algo inerente a todos nós, desde os primórdios da história do homem e dos homens, enquanto indivíduo e sociedade.

Nascemos sozinhos, como um amontoado de braços, pernas, cabelos, olhos e choro e desde o primeiro choro precisamos nos aproximar, para continuar vivendo. É preciso que a mãe ao ouvir seu filho chorando suponha, por exemplo, que este tem fome, frio, dor, e a partir daí amamentá-lo, niná-lo, cobri-lo, “ela [a mãe] formula a hipótese que o filho ao berrar lhe demanda(…) ela faz ao mesmo tempo a suposição de um sujeito e de um saber no filho” ( Pavone e Rafaeli, 2011,p.33.). Constituímo-nos por meio dos olhos dos outros, de suas palavras e nomeações e com o tempo deixam de nos dizer que temos fome ou frio e passam a falar “essa menina é teimosa” ou “esse menino é preguiçoso”, atribuem-nos características, comparam-nos com nossos pais, e a isso se segue um sem fim de construções: o menino pode a todo custo tentar provar que não é preguiçoso, buscando um sucesso acredita nunca conseguir alcançar ou a menina pode acabar por entender que é sim muito teimosa e que continuará sendo, adotando uma postura de oposição em todas as situações.

Mas e quando tais rótulos, de quem somos, do que deveríamos ser ou ter, que se apresentam quase como imperativos de condutas e comportamentos, pautados pelo que nos disseram ou pelo que achamos que temos que fazer para agradar, ser amado, “ser alguém na vida” se tornam tão avassaladores que deixamos de nos reconhecer? Quando nos vemos tão alienados no olhar do outro (mãe, pai, namorado, amigos, chefe…) que sentimos uma desesperada falta de controle?

Muitos pacientes chegam a psicoterapia assim, trazidos por esse mal-estar que adquire nomes como “ataque do Pânico” ou “ataque de ansiedade” e comportam sintomas como sudorese, palpitações, falta de ar, tonturas, etc. De forma que provavelmente já realizaram todo tipo de exames físicos possíveis na tentativa de encontrar uma causa orgânica que explicasse o mal funcionamento do corpo. Porém sem sucesso acabam se voltando para a psicoterapia como um último recurso, na busca de uma cura para o diagnóstico fornecido pelo psiquiatra (ou pelo Google), como se fosse possível de forma cirúrgica extirpar todo o mal-estar psíquico e voltar a ‘normalidade’. Mas é preciso paciência, pois o tratamento é mais homeopático do que cirúrgico!

Precisamos olhar para o que o diagnóstico diz de João e Maria enquanto sujeitos únicos, com vivências particulares. O paciente descreve tremores e falta de ar aparentemente “sem motivo”. O motivo pode não estar no corpo físico, mas não é sem (motivo), ele existe. O que faz João perder o ar e ficar tonto em diversas situações que parecem não comportar nenhuma semelhança? Sob quais medos e expectativas se produziram tantas palpitações? Que desejo o faz suar tanto? Não é um ataque de pânico que causa tudo isso, esse é o nome que a ciência médica deu a um certo conjunto de sintomas, é preciso que cada um possa dizer do sofrimento que o acomete, com suas palavras. Numa psicoterapia caberá ao psicólogo embarcar na tarefa de apontar com o dedo aquilo que ainda não foi nomeado e auxiliar o paciente na busca de suas próprias nomeações, na descoberta de um mundo que apesar de parecer recente sempre esteve ali. E quem sabe no meio dessa jornada as palpitações cessem, o medo de morrer vá aos poucos perdendo lugar, a sudorese se torne imperceptível…

PAVONE, Sandra; RAFAELI, Yone Maria. Diagnóstico diferencial entre psicose e autismo: impasses do transitivismo e da constituição do outro. Estilos clin.,  São Paulo ,  v. 16, n. 1, p. 32-51, jun.  2011 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71282011000100003&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  15  nov.  2018.

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