O “coração do Oceano”: a gigante chamada São Marcos

Não raro, as grandes histórias, sejam fictícias ou reais, carregam consigo uma jóia: a história da Universidade São Marcos não é diferente. Comparo nossa Universidade com o colossal navio Titanic que, para sua época, era a obra de maior grandeza da arquitetura naval, sendo visto e dito como inquebrantável, indestrutível, um gigante. Entretanto, eis que diante do imperecível surgiu a surpresa: um Iceberg. A vida, com suas peripécias, distribui Icebergs ao longo dos caminhos e nos convida a encontrá-los ou desviarmos deles, conforme a contingência. Para o Titanic, esse encontro foi desastroso: uma rachadura em seu casco, em sua base, fez desmanchar o ideal de inúmeras pessoas e, mais que isso, levou consigo muitas vidas, aquelas que não conseguiram se desprender do sonho a tempo. Há os que saltaram do navio logo aos primeiros indícios, houve aqueles que lutaram até o momento em que foi questão de vida ou morte. Mas também houve os músicos, os artistas, que diante de toda desgraça escolheram tocar a derradeira melodia, apesar do risco, até o fim. Sabemos qual foi o fim trágico deste navio, mas talvez saibamos melhor o que dele restou em nossas memórias: sua beleza, sua riqueza, os encontros, os bailes, as aventuras, a esperança, o orgulho, o desafio, a conquista, entre tantas outras pérolas que, embora no fundo do mar, permanecem perenes. As pérolas são as experiências vividas, os bons encontros, as construções, as descobertas, as vitórias, o próprio caminho da vida em si. Foi na Universidade São Marcos que eu, por exemplo, tive a oportunidade de iniciar o trajeto de minha profissão. Minha história com a São Marcos iniciou-se quando, vinda de uma temporada no interior paulista, encantei-me com seus jardins e prédios antigos, com o acalanto da natureza e a imponência da tradição. Ali fiz amigos, descobri paixões, encontrei amores. Tive a oportunidade de ver meu caminho cruzado por professores que, antes das lições de Psicologia, me ensinaram lições de vida, de generosidade. Foi na São Marcos, ainda como aluna, que ingressei na carreira acadêmica: lá escrevi meus primeiros trabalhos acadêmicos, publiquei meus primeiros artigos, lecionei a primeira aula de muitas que vieram depois, inclusive em outros lugares; entrei uma menina, me fiz psicóloga, psicanalista, me forjei professora. Como docente, tive o privilégio de tomar meus alunos como os pares mais importantes de minha jornada: aprendi o valor da interlocução, a importância do querer saber, o alcance da transmissão do desejo. Foi pelo trabalho de anos na Universidade São Marcos que vi nascer minha questão de pesquisa para o Mestrado e foi lá que pude me valer do que descobri pesquisando. Hoje quando clinico, seja no hospital, no ambulatório ou no consultório, penso que foi na São Marcos que dei meus primeiros passos na clínica, segurando a mão dos colegas, professores e funcionários da instituição. Posso dizer que testemunhei os tempos áureos da universidade: a efervescência da produção acadêmica do mestrado e dos cursos de pós-graduação, a revistas científicas Psiquê e Interações, qualis A no CAPES, os movimentos estudantis defendendo suas ideias teóricas, seus ideais de sociedade, os alunos sedentos por conhecimento e certos de que estavam numa das melhores Universidades de São Paulo. Mas também testemunhei muitas coisas tristes: vi professores muito queridos indo embora e partindo o coração da gente, não que o fizessem deliberadamente, mas porque já não havia mais como continuarem; vi muita corrupção, vi muita gente boa passar necessidade porque aquele trabalho era tudo que tinha, vi muito aluno se desesperar com medo de perder o investimento que custa muito sacrifício, vi muita tristeza. Para mim, intimamente, fica a metáfora do navio Titanic: na ficção contada pelas telas do cinema, sua joia maior chamava-se “o coração do Oceano”, artefato que deu sentido à trama daquele romance. Convido a todos àqueles que fazem parte desta nau como eu a recuperarem o “coração do Oceano” e quem sabe, com a esperança de que a vida é soberana, possamos ter passado pelo naufrágio carregando em nossos bolsos a joia maior: o percurso de cada um, aquilo que nos pertence exclusivamente e a mais ninguém. É o que venho levando dessa gigante: a São Marcos fechou, mas a joia permaneceu em meu bolso.

Comparo nossa Universidade com o colossal navio Titanic que, para sua época, era a obra de maior grandeza da arquitetura naval, sendo visto e dito como inquebrantável, indestrutível, um gigante. Entretanto, eis que diante do imperecível surgiu a surpresa: um Iceberg. A vida, com suas peripécias, distribui Icebergs ao longo dos caminhos e nos convida a encontrá-los ou desviarmos deles, conforme a contingência. Para o Titanic, esse encontro foi desastroso: uma rachadura em seu casco, em sua base, fez desmanchar o ideal de inúmeras pessoas e, mais que isso, levou consigo muitas vidas, aquelas que não conseguiram se desprender do sonho a tempo. Há os que saltaram do navio logo aos primeiros indícios, houve aqueles que lutaram até o momento em que foi questão de vida ou morte. Mas também houve os músicos, os artistas, que diante de toda desgraça escolheram tocar a derradeira melodia, apesar do risco, até o fim. Sabemos qual foi o fim trágico deste navio, mas talvez saibamos melhor o que dele restou em nossas memórias: sua beleza, sua riqueza, os encontros, os bailes, as aventuras, a esperança, o orgulho, o desafio, a conquista, entre tantas outras pérolas que, embora no fundo do mar, permanecem perenes. As pérolas são as experiências vividas, os bons encontros, as construções, as descobertas, as vitórias, o próprio caminho da vida em si. Foi na Universidade São Marcos que eu, por exemplo, tive a oportunidade de iniciar o trajeto de minha profissão. Minha história com a São Marcos iniciou-se quando, vinda de uma temporada no interior paulista, encantei-me com seus jardins e prédios antigos, com o acalanto da natureza e a imponência da tradição. Ali fiz amigos, descobri paixões, encontrei amores. Tive a oportunidade de ver meu caminho cruzado por professores que, antes das lições de Psicologia, me ensinaram lições de vida, de generosidade. Foi na São Marcos, ainda como aluna, que ingressei na carreira acadêmica: lá escrevi meus primeiros trabalhos acadêmicos, publiquei meus primeiros artigos, lecionei a primeira aula de muitas que vieram depois, inclusive em outros lugares; entrei uma menina, me fiz psicóloga, psicanalista, me forjei professora. Como docente, tive o privilégio de tomar meus alunos como os pares mais importantes de minha jornada: aprendi o valor da interlocução, a importância do querer saber, o alcance da transmissão do desejo. Foi pelo trabalho de anos na Universidade São Marcos que vi nascer minha questão de pesquisa para o Mestrado e foi lá que pude me valer do que descobri pesquisando. Hoje quando clinico, seja no hospital, no ambulatório ou no consultório, penso que foi na São Marcos que dei meus primeiros passos na clínica, segurando a mão dos colegas, professores e funcionários da instituição. Posso dizer que testemunhei os tempos áureos da universidade: a efervescência da produção acadêmica do mestrado e dos cursos de pós-graduação, a revistas científicas Psiquê e Interações, qualis A no CAPES, os movimentos estudantis defendendo suas ideias teóricas, seus ideais de sociedade, os alunos sedentos por conhecimento e certos de que estavam numa das melhores Universidades de São Paulo. Mas também testemunhei muitas coisas tristes: vi professores muito queridos indo embora e partindo o coração da gente, não que o fizessem deliberadamente, mas porque já não havia mais como continuarem; vi muita corrupção, vi muita gente boa passar necessidade porque aquele trabalho era tudo que tinha, vi muito aluno se desesperar com medo de perder o investimento que custa muito sacrifício, vi muita tristeza. Para mim, intimamente, fica a metáfora do navio Titanic: na ficção contada pelas telas do cinema, sua jóia maior chamava-se “o coração do Oceano”, artefato que deu sentido à trama daquele romance. Convido a todos àqueles que fazem parte desta nau como eu a recuperarem o “coração do Oceano” e quem sabe, com a esperança de que a vida é soberana, possamos ter passado pelo naufrágio carregando em nossos bolsos a jóia maior: o percurso de cada um, aquilo que nos pertence exclusivamente e a mais ninguém. É o que venho levando dessa gigante: a São Marcos fechou, mas a jóia permaneceu em meu bolso.

1 Comentário para “ O “coração do Oceano”: a gigante chamada São Marcos”

  1. Juliana Rua says :

    Eis que leio o primeiro texto e as lágrimas me vem aos olhos, pois fiz parte dessa história da São Marcos, foi lá que conheci grandes amigos, professores maravilhosos e realizei o meu grande sonho, ser psicóloga.
    Realmente foi uma grande pena tudo o que ocorreu, foram muitos momentos felizes e muitos momentos triste, de incerteza…
    Enfim, achei sua reflexão perfeita!

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