O poder em Foucault e o Sentido à Liberdade

Em primeiro lugar

Desde que o mundo é mundo as pessoas sofrem de pressões sociais e políticas. A prisão é uma instituição de poder, por exemplo, onde o Estado, se utilizando de um espaço designado, isola àqueles cuja atitude fere a constituição e, por sua vez, moralidade vigente.

Jeremy Bentham, filósofo e jurista, concebeu a ideia de uma prisão panóptica como a “prisão ideal”. Nesse modelo de penitenciária haveria uma torre central e as celas ficariam ao redor dela, como se vê na imagem. A torre ficaria em uma altura tal que os presos não poderiam ver os guardas. E por essas razões é tida como ideal, pois se utilizaria da dúvida como uma forma de controle. Importante: não é estar sendo vigiado, mas a idéia de estar sendo vigiado que controla.

Assim, o ponto chave aqui é que as ideias podem nos controlar mais do que algo concreto. Por isso sua eficácia, pois a torre estaria sempre a vista lá no alto, mas os presos nunca saberiam se há vigias ou não. Segundo Bentham, o que controlaria os presos é a dúvida, pois não há como saber do paradeiro guardas. Sempre com a dúvida em mente, melhor não tentar escapar.

A prisão Panóptica

Então, o que tem a ver a prisão panóptica com a sua liberdade e auto aceitação? Tudo a ver na visão de Michel Foucault, um grande filósofo do século XX. Pois, segundo ele, somos controlados por diversos discursos de poder.

Esse autor estabelece, no livro Microfísica do Poder, uma particular diferença na repressão como forma de controle, bem como, na produção de discursos, prazeres e ideias. O poder nem sempre é visto, mas, ainda assim, está sempre muito presente nas ideias. É assim porque desde cedo é introjetado via punições e castigos, mas também na forma como se organiza a sociedade e se produz cultura, arte e conhecimento. A escola tradicional é um exemplo de instituição onde o poder está presente em várias formas. Foucault provoca ao chamar os alunos de corpos dóceis. Vê-se assim pela disposição das crianças numa sala – todas iguais, uniformizadas, em fila linear, numa posição hierárquica inferior, uma lista de chamada. Não somente na forma, mas também o conteúdo quando se privilegia o acúmulo de conteúdos técnicos ao invés de estimular a reflexão e o livre pensamento dos alunos. 

Em outras palavras, o poder está nos discursos sobre o mundo ao nosso redor e as “verdades” vinculadas a ele. Isto nos atravessa, atravessa o nosso modo de lidar com nossos corpos, com o nosso comportamento, com o nosso entendimento do que é certo e errado, com o modo como utilizamos a tecnologia, com a nossa conduta como profissionais, na relação e nos sentidos sobre a família, nos atravessa no modo de ver a nós mesmo, etc.

As amarras do poder se articulam em uma rede complexa. E agora?

Possíveis saídas

Acredito que há enorme importância de sabermos que existem pressões de poder agindo em nosso modo de nos compreendermos e nos comportarmos. Assim, retomo uma lição valiosa: o conhecimento liberta. E, além disso, o autoconhecimento também liberta! Dois lados da mesma moeda, pois nem sempre é fácil capturar “dentro” ou “fora” de nós esses pensamentos e discursos pré-moldados que nos isolam e que podem estar causando mal estar.

Daí a importância do analista ter uma visão apurada, contextualizada sobre o mundo que vivemos e as possíveis fontes de adoecimento que sempre surgiram e outras que podem vir a aparecer.

Sabemos que

Certamente, o poder cria regimes de “verdades” que podem ser causadores de sintomas, adoecem as pessoas. Cabe a psicologia equilibrar a balança para o outro lado ao promover autonomia e a palavra falada, repensando o status quo desde o começo de sua existência – vide a repercussão dos primeiros trabalhos de Freud.

O poder exerce sua força não apenas na repressão, mas no dia a dia. Constrói maneiras, para além da repressão, de controle social. Que maneiras são essas? Induz ao prazer, forma saberes e produz “verdades”, discursos.

Neste sentido, até o intelectual não passou ileso, pois também é representante do erro, da manipulação semântica do poder.

Mais importante, no momento em que a economia chega a atravessar o trabalho do intelectual, se perde a essência, a pedra filosófica e angular do trabalho “universal” de um pensador: a liberdade.

Liberdade?

Para Foucault, o intelectual se especificou dentro de uma função política, não mais “universalizando” o conhecimento, mas atuando para a manutenção do poder dos países nas guerras. Onde foi parar o simbólico status de justiceiros aos intelectuais?

“Vivemos atualmente o desaparecimento do “grande escritor” que sacrifica sua vida material em apelo a palavra e o conhecimento.

Para concluir

Os poderes a que Focault se refere são políticos, mas bem servem, e isto é uma generalização do seu pensamento, para incriminar os poderes que hoje nos controlam: quais são? Será que a tecnologia não desempenha, hoje, esse papel?

Se não pode detê-los junte-se a eles. Então, a saída do intelectual (específico) é a de assumir e compreender seu papel político que, quer queira quer não, já o é esperado e condicionado – imposto. E se assim o é, que faça o melhor para não servir ao poder, mas às pessoas.

“Cada sociedade tem seu regime de verdade”. Também verdadeiro é o lugar político do intelectual específico (profissional) dentro do modelo econômico capitalista.

“Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder, mas de desvincular o poder da verdade”.

Ou seja, se nos aprofundarmos nas perguntas e reflexões sobre como estamos levando o nosso dia-a-dia, sairemos do “piloto automático”, adentrando no campo da escolha e da luta pelas próprias causas e não a de outras pessoas/poderes. A terapia pode ser um espaço bastante importante para estas tão necessárias reconstruções/resignificações, por vezes muito necessárias.

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