O que é a terapia psicanalítica?

“Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero.” (Sigmund Freud)

Quando você está atravessando um período crítico qualquer, seja na transição de fases do desenvolvimento psicossocial, nas suas relações afetivas e profissionais ou simplesmente percebe-se desafiado por seus próprios desejos a alterar a sua perspectiva e o seu modo de se haver no mundo, uma das questões que nos ocorrem é: como vencer este momento e chegar mais perto daquilo que quero?

Talvez a conclusão mais acertada seja: preciso buscar ajuda de um profissional que saiba ouvir e compreender o meu momento. Que seja capaz de ajudar-me a encontrar uma solução viável.

É provável que você decida-se por buscar um profissional do campo da saúde mental. Uma vez tomada esta resolução, o próximo passo é decidir-se por um psicólogo ou psiquiatra.

Bem, até aqui não existem grandes dificuldades. Basicamente, o psiquiatra é o profissional da saúde mental habilitado a diagnosticar, a tratar e a reabilitar a seus pacientes por meio da intervenção psicofarmacológica.

No caso da Psicologia, enquanto intervenção terapêutica exclusiva ou em parceria com a terapêutica psiquiátrica, o profissional que o atenderá será o psicólogo clínico.

Este é o profissional habilitado a compreender, a diagnosticar e a tratar, de acordo com a sua abordagem teórica, o sofrimento do qual você se queixa.

São muitas as abordagens teóricas em psicoterapia reconhecidas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), com as quais os profissionais psicólogos devem orientar as suas práticas clínicas junto aos seus pacientes.

O referencial teórico no qual sustento a minha prática clínica é a Psicanálise, fundada no século XIX pelo médico austríaco Sigmund Freud para tratar a seus pacientes e curá-los dos sofrimentos psíquicos através do método da associação livre. 

Chamado também de regra fundamental, o método da associação livre requer que o paciente, em sessão analítica, diga tudo o que lhe vier à cabeça, principalmente aquilo de que sente-se tentado a omitir, seja a pretexto de achar vergonhoso e/ou doloroso.

Diga tudo o que lhe vier à cabeça! De acordo com o psicanalista francês Jacques Lacan, tal regra leva o paciente a se confrontar com uma fala livre, cujo controle ele não detém, uma fala plena e dolorosa porque suscetível de ser verdadeira.

Talvez aqui aparece um certo ponto de luz sobre o enigma da cura em psicanálise, o que ela significa? Para a teoria psicanalítica, o processo de cura implica em que o paciente passe pela singular experiência do inconsciente através da livre associação, supere suas resistências e alce um estágio superior de desenvolvimento psíquico que o protegerá de novos adoecimentos neuróticos. De acordo com Freud, o trabalho árduo de superação das resistências é o efeito essencial do tratamento analítico. 

Ao pedir que o paciente fale tudo o que vier à cabeça, sem censura ou crítica, o analista o autoriza, não apenas a falar tudo o que sabe e esconde de terceiros, mas principalmente a falar o que não sabe, isto é, o que procede do seu inconsciente e que, com certa frequência, aparecem nos sonhos, nos esquecimentos, nos lapsos, nos equívocos, descuidos e nos mais variados atos falhos.

Será a partir da revelação do inconsciente pela fala que paciente e analista descobrirão os desejos recalcados, proibidos e inibidos que até então se expressaram na vida do paciente inconscientemente pela via da somatização. Mas que agora é coberto pela consciência do paciente, esta que o desafia a responder autonomamente enquanto sujeito de seu próprio desejo, transformando-se ou aceitando-se como tal. 

Ser consultado e analisado por um profissional psicanalista é colocar-se na dimensão do inconsciente, deixar-se revelar por meio de uma fala livre, desinibida e sem qualquer preocupação quanto a lógica discursiva ou performance heterônoma qualquer. É uma experiência de encontro consigo mesmo, isto é, encontro com a sua história, com os seus conflitos, com os seus afetos, com os seus processos, com os seus acordos internos e externos para ser e estar na vida. E qual será o resultado desta corajosa experiência analítica? Certamente o de assumir, i.é, de dar conta de sua própria verdade e de todo o processo de transformação de si que isto implica.


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