O que falta dizer sobre…(Brumadinho)

Ainda no início do ano fomos surpreendidos pelo rompimento da barragem localizada em Brumadinho e quase diariamente, por meses, tivemos novas notícias.

Acompanharam-se os resgates, a luta dos bombeiros, a histórias das famílias, as movimentações da Vale e da justiça.

Um ônibus com sobreviventes foi encontrado. Civis se organizaram para resgatar animais. A mineradora se pronunciou a respeito do auxílio financeiro que pretendia dar àqueles que foram prejudicados. Entrevistas e perfis com os sobreviventes foram lançados. E não parou por aí…

Uma matéria se propôs a descrever o efeito físico nos corpos ao se chocar com uma onda de lama. Também como esta se expande e invade os espaços, entre outros pormenores que beiram um sensacionalismo.

Tentavam nos aproximar da realidade, nos manter informados, dar forma a um horror aparentemente indescritível e, na falta de palavras, vimos lágrimas que transbordaram no rosto de um repórter que ao entrar ao vivo não conseguiu esconder a emoção.

A palavra não toda

E lidamos nós também, enquanto telespectadores, leitores e cidadãos com a tarefa de tentar colocar o indescritível em palavras.

Emitimos opiniões, retomamos as manchetes do dia enquanto aguardamos na fila do supermercado, no almoço de família assistiu-se atentamente as cenas de resgate.

Mas não importa o que se diga. Parece que estamos sempre procurando por mais, por mais detalhes, por uma palavra mais forte e precisa que possa descrever exatamente o que aconteceu.

Como se assim pudéssemos absorver uma certa objetividade dos fatos e deixássemos de nos impregnar de tantos afetos.

E como é difícil encontrá-la, descobrimos que nossa maior ferramenta de contato falha.

Mas seguimos tentando e assim surgiram, por exemplo, as  discussões a respeito da terminologia correta para descrever o que assistimos.

Que nome tem isso?

Alguns diziam ,‘acidente’ ,‘catástrofe’, outros ‘crime ambiental’. E há aqueles que preferiam falar do ‘desastre da Vale’, desvinculando o nome do município para não estigmatizá-lo.

O tempo passou e a Brumadinho foram se somando, também diariamente, outras notícias.

“Rio:Jovem morre após ser asfixiado por segurança em mercado”; “Incêndio no CT do Flamengo: ‘Não existe fogo acidental, todos são resultado de falhas’, dizem especialistas”. Intercalam-se, uma cede sobre o peso da outra.

Por fim

Em meio a todo esse movimento, o convite que faço é que não nos deixemos soterrar por elas, colecionando-as como um saber apaziguador das amarguras ou como mais uma notícia que merece um “like” e um rápido esbravejamento online, mas sim um lembrete do incômodo que tenta ser sanado.

Desse modo, na clínica psicanalítica algo análogo toma espaço; no paciente há sempre a tentativa de colocar em palavras algo confuso e que parece difícil de se comunicar àquele que se senta à sua frente, mas na tentativa e na falha de fazê-lo, outras coisas importantes são ditas, cabendo ao trabalho em movimento não deixar que tais produções passem despercebidas, ou que apenas passem, mas de construir a partir dos ditos o incômodo que, sem saber (ou inconscientemente) se faz presente e que de outra forma permaneceria ignorado, mas nem por isso inócuo.

Assim tanto entre as quatro paredes do consultório, como na sociedade, importa estar atento para que o saber construído nas leituras e discussões não sejam solidificadas como absolutos na tentativa de tamponar o seu contrário – a falta de certezas e de vocábulos – mas um alerta do próprio confronto com a impotência que é necessária para nos manter inflamados para continuar sempre pedindo por mais, mais respostas, mais justificativas, mais ações e menos repetições.

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